É uma cena familiar em muitas casas. Uma criança está chorando, sobrecarregada, inconsolável. O pai, sem paciência e ideias, alcança a única coisa que funciona de forma confiável: uma tela. Algumas telas depois, a paz é restaurada. O momento passa, o barulho desaparece e a vida segue. Mas de acordo com um novo estudo, o que parece ser uma solução inofensiva pode estar silenciosamente piorando as coisas.
Pesquisadores que acompanham o desenvolvimento emocional de crianças ao longo do tempo dizem que o tempo de tela não é apenas uma distração – está se tornando um hábito emocional. O estudo, que reuniu dados de quase 300.000 crianças em vários países, sugere que as crianças não são apenas afetadas pelo uso da tela. Elas também estão recorrendo às telas para lidar com os sentimentos próprios que essas telas podem estar ajudando a criar.
Isso não significa que as telas estão arruinando a infância. Mas sugere que nossa crescente dependência de dispositivos digitais como solução para o desconforto emocional está criando um ciclo que se alimenta. Crianças que passam mais tempo nas telas tendem a desenvolver mais problemas emocionais ou comportamentais. Então, quando se sentem sobrecarregadas por esses sentimentos, recorrem novamente às mesmas telas em busca de conforto. É um ciclo que silenciosamente aperta.
O que diferencia essa pesquisa é sua escala e seu design. Ao invés de tirar fotos isoladas, ela acompanhou crianças ao longo de meses e anos. Isso permitiu aos cientistas fazer uma pergunta mais difícil – não apenas se o tempo de tela e os problemas emocionais estão ligados, mas qual vem primeiro. A resposta, parece, é ambos.
Um dos padrões mais claros surgiu em torno dos video games. Entre as atividades na tela em que as crianças se envolviam, os jogos se destacaram como aquela mais fortemente conectada com a dificuldade emocional posteriormente. Também acabou sendo a atividade mais frequentemente escolhida por crianças que já estavam enfrentando problemas. Para elas, o desejo pelos jogos era mais do que diversão – era uma fuga emocional. Mas essa fuga tinha consequências.
Os pais frequentemente fazem escolhas cuidadosas para crianças mais novas, selecionando conteúdo saudável ou limitando o acesso totalmente. Mas à medida que as crianças crescem, as regras frequentemente se tornam mais flexíveis. O estudo descobriu que é nestes anos posteriores – entre seis e dez – que os riscos realmente aumentam. As crianças nessa faixa etária têm mais controle sobre o uso de suas telas e são mais capazes de procurar conteúdo que corresponda ao seu humor. Uma criança chateada após a escola pode não querer falar. Ela pode apenas querer ficar sozinha com um jogo. O problema é que essa escolha, repetida ao longo do tempo, pode substituir os tipos de experiências que constroem resiliência.
O que fica perdido é fácil de ignorar. Uma conversa com um dos pais. Tempo ao ar livre. A tentativa e erro de descobrir como se sentir melhor sem um dispositivo. Os pesquisadores chamam isso de efeito de deslocamento – a ideia de que o uso da tela não apenas adiciona algo ao dia de uma criança, mas substitui algo mais. Esse algo, em muitos casos, é o trabalho silencioso de crescer.
Através dos estudos, também surgiram diferenças de gênero. As meninas pareciam ser mais afetadas pelo uso geral da tela, especialmente na categoria de entretenimento em geral. Os meninos, especialmente os mais velhos, mostraram efeitos mais pronunciados dos jogos. Mas o fio comum não era o gênero. Era como as crianças usavam as telas em resposta ao desconforto – e o que acontece quando as telas se tornam sua primeira linha de defesa.
O estudo também oferece uma perspectiva para pais cansados. Os efeitos observados eram reais, mas relativamente pequenos. Eles não sugerem uma catástrofe, mas destacam uma tendência. Nem toda criança que passa tempo em um tablet desenvolverá ansiedade ou terá problemas de comportamento. Mas em grandes grupos de crianças, padrões aparecem. E são padrões aos quais os pais, professores e formuladores de políticas devem prestar atenção.
Uma das descobertas mais esperançosas foi que o uso de tela feito ao lado dos pais – especialmente quando educativo ou guiado – mostrou pouco ou nenhum efeito prejudicial. O perigo não estava na presença das telas, mas em seu papel como um substituto para o contato humano. Quando as telas se tornam um substituto para o contato humano, especialmente durante momentos de angústia, as crianças podem perder a oportunidade de aprender a lidar.
Não há necessidade de pânico. Os dispositivos não vão desaparecer. Nem a solução está em bani-los completamente. Mas os pais que percebem quando seu filho está usando uma tela como um escudo em vez de uma ferramenta podem ter uma oportunidade. Um convite para intervir. Para conversar, brincar, ouvir – mesmo quando é difícil. Especialmente quando é difícil.
O que esta pesquisa nos pede não é abandonar a tecnologia, mas olharmos mais de perto como ela se encaixa em nossa vida familiar. As telas podem oferecer paz no momento, mas ao longo do tempo, elas podem silenciosamente moldar a forma como as crianças lidam com o mundo. E quando se trata do desenvolvimento emocional, essa formatação importa.
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